Instalações, materiais e espaços ocultos que podem favorecer a propagação do fogo
Quando pensamos na propagação de um incêndio, é comum imaginar as chamas avançando de um cômodo para outro de maneira visível. Porém, dentro de uma edificação, existem diversos caminhos ocultos que podem contribuir para que fumaça, gases quentes e chamas alcancem outros ambientes antes mesmo de serem percebidos.
Forros, shafts, dutos, passagens de instalações, fachadas, paredes, pisos e até pequenos espaços entre elementos construtivos podem funcionar como verdadeiras rotas de propagação quando não são adequadamente projetados, compartimentados ou protegidos.
Por isso, a segurança contra incêndio não deve considerar apenas os equipamentos aparentes, como extintores e hidrantes. É necessário analisar também como a própria construção pode influenciar o desenvolvimento e a propagação de um incêndio.
O fogo pode encontrar caminhos que não são visíveis
Durante um incêndio, o calor e a fumaça procuram caminhos para se deslocar pela edificação. A existência de aberturas, frestas, passagens de instalações e materiais inadequados pode facilitar esse deslocamento.
Em muitos casos, uma parede ou laje aparentemente íntegra pode possuir, em seu interior, diversas passagens para:
cabos elétricos;
tubulações;
redes hidráulicas;
sistemas de climatização;
telecomunicações;
instalações de gás;
dutos;
cabos de dados;
sistemas de exaustão.
Essas passagens são necessárias para o funcionamento do edifício, mas precisam ser consideradas no projeto de segurança contra incêndio.
Quando uma abertura atravessa um elemento que deveria contribuir para a compartimentação, ela pode comprometer a capacidade desse elemento de dificultar a passagem do fogo e da fumaça.
1. Shafts: grandes caminhos verticais dentro da edificação
Os shafts são espaços destinados à passagem de instalações e estão presentes em diversos tipos de edificações.
Por atravessarem vários pavimentos, podem representar um ponto especialmente importante para a segurança contra incêndio.
Imagine um incêndio iniciado em um pavimento. Se houver comunicação inadequada entre esse ambiente e um shaft, a fumaça e os gases aquecidos podem alcançar outros níveis da edificação.
Quando não existem medidas adequadas de proteção e compartimentação, o shaft pode favorecer uma propagação vertical.
Isso é particularmente relevante em:
edifícios residenciais;
hospitais;
hotéis;
edifícios comerciais;
escolas;
centros logísticos;
shopping centers;
instalações industriais.
O que deve ser observado?
A análise deve considerar, entre outros aspectos:
fechamento dos shafts;
resistência ao fogo dos elementos de compartimentação;
passagens de instalações;
selagem das aberturas;
portas e acessos;
continuidade da proteção entre pavimentos;
materiais utilizados internamente.
Não basta apenas "fechar o buraco". A solução precisa ser compatível com a função de proteção daquele elemento construtivo.
2. Forros e entreforros: espaços que podem esconder a propagação
O espaço existente acima de um forro pode passar despercebido durante uma inspeção visual comum.
Entretanto, dependendo da configuração da edificação, esse espaço pode conter uma grande quantidade de instalações e materiais combustíveis.
Cabos, revestimentos, componentes plásticos, isolamentos e outros materiais podem estar presentes nessa região.
Além disso, um incêndio iniciado em um ambiente pode permitir que fumaça e gases quentes se desloquem pelo entreforro, atingindo regiões afastadas do ponto inicial.
Por isso, a avaliação da segurança contra incêndio deve considerar não apenas o ambiente ocupado pelas pessoas, mas também os espaços existentes acima, abaixo e dentro dos sistemas construtivos.
3. Passagens de cabos e tubulações
As instalações precisam atravessar paredes, pisos e lajes.
O problema surge quando essas passagens são executadas sem considerar a necessidade de preservar a resistência ao fogo do elemento atravessado.
Uma abertura aparentemente pequena pode criar uma comunicação entre ambientes que deveriam permanecer separados durante determinado período.
É nesse contexto que entram soluções de selagem e proteção das passagens de instalações, escolhidas de acordo com a situação e com os requisitos aplicáveis.
A solução utilizada deve ser adequada ao tipo de instalação e ao elemento construtivo envolvido.
Por exemplo, uma passagem de cabos elétricos não necessariamente recebe a mesma solução destinada a uma tubulação metálica ou a outro tipo de instalação.
4. Dutos de ventilação e climatização
Sistemas de ventilação e climatização também precisam ser considerados na estratégia de segurança contra incêndio.
Isso acontece porque os dutos podem atravessar diferentes ambientes e pavimentos, criando conexões físicas entre áreas distintas.
Dependendo da configuração do sistema, essas conexões podem contribuir para o deslocamento de fumaça e calor.
Por esse motivo, projetos de sistemas de ventilação, exaustão e climatização devem considerar as medidas de segurança contra incêndio aplicáveis à edificação.
Entre os elementos que podem fazer parte dessas soluções estão dispositivos de controle de fumaça, sistemas de proteção e componentes destinados a limitar a passagem do fogo e da fumaça, conforme o projeto e as exigências técnicas pertinentes.
5. Materiais combustíveis dentro de espaços técnicos
Outro ponto frequentemente negligenciado é a presença de materiais combustíveis em locais que não são ocupados normalmente pelas pessoas.
Depósitos improvisados, áreas técnicas, casas de máquinas, entreforros e espaços de manutenção podem acumular materiais como:
papelão;
embalagens;
plásticos;
tecidos;
madeira;
resíduos;
materiais de manutenção.
Mesmo que esses espaços não sejam considerados áreas de permanência, a presença de carga de incêndio adicional pode influenciar o desenvolvimento de um incêndio.
Por isso, organização e controle de materiais também fazem parte da prevenção.
Um espaço escondido não deixa de representar um risco apenas porque poucas pessoas o acessam.
6. Fachadas e elementos construtivos
A propagação do fogo também pode ocorrer pela parte externa da edificação.
Dependendo dos materiais empregados e da configuração da fachada, um incêndio pode atingir regiões superiores por meio do calor e das chamas.
Isso torna importante avaliar:
materiais utilizados na fachada;
revestimentos;
sistemas de isolamento;
juntas;
aberturas;
esquadrias;
encontros entre fachada e pavimentos;
continuidade dos elementos de proteção.
Em edifícios de múltiplos pavimentos, esse aspecto ganha ainda mais importância, já que a propagação externa pode permitir que o incêndio alcance outros níveis da construção.
7. Frestas, juntas e encontros entre
elementos
Nem sempre o caminho do fogo é uma abertura grande e evidente.
Frestas e juntas entre diferentes componentes construtivos também precisam ser consideradas.
Alguns exemplos incluem:
encontro entre parede e laje;
encontro entre parede e fachada;
juntas de dilatação;
passagem entre pisos;
encontros entre sistemas construtivos;
aberturas para instalações.
Esses pontos precisam ser tratados de acordo com suas características e com a função de proteção exigida para cada situação.
Uma pequena descontinuidade pode comprometer o desempenho esperado de um sistema de compartimentação.
8. Portas e aberturas em elementos de compartimentação
Portas instaladas em paredes que fazem parte da compartimentação contra incêndio também merecem atenção.
Não adianta possuir uma parede com determinado desempenho de resistência ao fogo se uma abertura nela instalada não possui solução compatível.
Além disso, uma porta corta-fogo pode perder parte de sua função quando:
permanece aberta de maneira inadequada;
possui objetos impedindo seu fechamento;
apresenta danos;
recebe alterações não previstas;
possui componentes inadequados;
sofre manutenção deficiente.
A proteção contra incêndio depende do conjunto funcionando corretamente, e não apenas de um elemento isolado.
9. Instalações elétricas e o risco de propagação
As instalações elétricas merecem atenção não apenas pelo risco de originar um incêndio, mas também pelas consequências que podem ocorrer depois que o fogo começa.
Cabos atravessando diferentes compartimentos, eletrocalhas, bandejas e passagens técnicas precisam ser considerados na estratégia de proteção.
Uma instalação pode atravessar diversos ambientes e pavimentos. Por isso, sua execução deve ser compatível com as características construtivas e com as medidas de segurança previstas para a edificação.
Além disso, instalações antigas, improvisações e alterações realizadas sem planejamento podem aumentar a vulnerabilidade do sistema.
10. Por que a compartimentação é tão importante?
A compartimentação tem como objetivo limitar a propagação do incêndio dentro da edificação.
Em termos simples, ela busca evitar que um incêndio iniciado em determinado setor se espalhe rapidamente para outros ambientes.
Para isso, elementos como paredes, portas, pisos, lajes e outros componentes podem exercer funções específicas dentro da estratégia de segurança.
Porém, a compartimentação só funciona adequadamente quando existe continuidade da proteção.
Imagine uma parede projetada para separar dois ambientes. Se essa parede possui diversas aberturas sem tratamento adequado para passagem de instalações, a proteção pode ser comprometida.
É como construir uma barreira e deixar vários caminhos abertos através dela.
11. O problema das reformas e alterações posteriores
Um dos momentos mais críticos para a segurança contra incêndio pode ocorrer depois que a edificação já está pronta.
Durante reformas e adaptações, novas instalações são frequentemente adicionadas.
Pode ser necessário instalar:
novos cabos;
equipamentos de ar-condicionado;
tubulações;
sistemas de dados;
câmeras;
infraestrutura para novos equipamentos.
Para passar essas instalações, paredes, forros e outros elementos podem ser perfurados ou modificados.
Se essas intervenções não forem acompanhadas de soluções adequadas de proteção, a edificação pode perder características previstas originalmente.
Por isso, qualquer alteração em uma edificação deve considerar também seus impactos sobre a segurança contra incêndio.
12. A fumaça também precisa ser considerada
Quando falamos em propagação de incêndio, muitas pessoas pensam exclusivamente nas chamas.
Entretanto, a fumaça representa um dos principais perigos durante um incêndio.
Ela pode:
reduzir drasticamente a visibilidade;
dificultar a localização das saídas;
provocar desorientação;
ocupar rotas de fuga;
transportar gases tóxicos;
alcançar ambientes distantes do foco inicial.
Por isso, espaços ocultos que favorecem o deslocamento de fumaça também devem ser considerados na avaliação da segurança da edificação.
Como identificar possíveis caminhos de propagação?
Uma avaliação adequada deve considerar a edificação como um sistema.
Algumas perguntas importantes são:
Existem shafts atravessando vários pavimentos?
Por onde passam os cabos e tubulações?
Existem aberturas em paredes ou lajes de compartimentação?
Os entreforros possuem continuidade entre ambientes?
Existem materiais combustíveis armazenados em espaços técnicos?
As portas e elementos de compartimentação estão íntegros?
Foram realizadas reformas ou adaptações posteriores?
Os dutos e sistemas de ventilação foram considerados no projeto de segurança?
As passagens de instalações possuem proteção adequada?
Essas perguntas ajudam a identificar pontos que podem não ser percebidos em uma observação superficial.
Segurança contra incêndio começa antes das chamas
A prevenção de incêndios não consiste apenas em instalar extintores e hidrantes.
Uma edificação segura precisa considerar como seus materiais, instalações e características construtivas podem influenciar o comportamento de um incêndio.
Shafts, forros, dutos, passagens de instalações, fachadas, juntas e espaços técnicos podem parecer detalhes da construção, mas podem ter grande importância quando ocorre uma emergência.
Por isso, projetos, reformas, inspeções e manutenções devem considerar também aquilo que normalmente não vemos.
O que está escondido na construção também faz parte da segurança contra incêndio.
A Projeseg Engenharia pode ajudar
A análise das condições de segurança contra incêndio deve ser realizada considerando as características específicas de cada edificação, seus sistemas construtivos, ocupação e requisitos aplicáveis.
A Projeseg Engenharia atua com projetos e soluções relacionadas à segurança contra incêndio, auxiliando na avaliação e regularização das edificações.
Prevenir não é apenas combater o fogo. É impedir que a própria edificação facilite sua propagação.


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