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Compartimentação contra incêndio: como impedir que o fogo se espalhe de um ambiente para outro?

há 11 minutos
9 min de leitura


Um incêndio raramente permanece restrito ao ponto onde começou. Dependendo das características da edificação, as chamas, o calor e principalmente a fumaça podem encontrar caminhos para alcançar rapidamente outros ambientes, pavimentos ou áreas da construção.


É justamente para reduzir esse risco que existe a compartimentação contra incêndio, uma das principais medidas de proteção passiva das edificações.

A ideia é simples: dividir estrategicamente a edificação em áreas capazes de retardar a propagação do incêndio, criando uma barreira entre o local atingido e os demais ambientes.


Mas essa proteção não depende apenas de construir uma parede resistente ao fogo. Portas, passagens de tubulações, shafts, dutos, lajes e outros elementos precisam funcionar em conjunto para que a compartimentação realmente cumpra sua função.


O que é compartimentação contra incêndio?


A compartimentação é uma medida construtiva destinada a evitar ou minimizar a propagação do fogo, calor e gases de um ambiente para outro.

De acordo com a terminologia adotada pelo Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais, a compartimentação horizontal e vertical é formada por elementos construtivos resistentes ao fogo que ajudam a limitar a propagação do incêndio dentro da edificação. (Bombeiros Minas Gerais)

Na prática, imagine um edifício dividido em diferentes áreas:

Ambiente A → barreira resistente ao fogo → Ambiente B

Se ocorrer um incêndio no Ambiente A, a barreira deve dificultar que o fogo, o calor e a fumaça atinjam imediatamente o Ambiente B.

Isso proporciona mais tempo para:

  • identificar o incêndio;

  • acionar o sistema de emergência;

  • realizar o combate;

  • evacuar os ocupantes;

  • permitir a atuação do Corpo de Bombeiros;

  • reduzir os danos materiais;

  • evitar que um incêndio localizado se transforme rapidamente em um incêndio generalizado.

Portanto, a compartimentação não tem como objetivo necessariamente apagar o incêndio, mas sim limitar sua propagação.


Compartimentação horizontal e vertical: qual é a diferença?


A compartimentação pode acontecer em diferentes direções dentro de uma edificação.

Compartimentação horizontal


A compartimentação horizontal busca impedir que o incêndio se espalhe de uma área para outra no mesmo pavimento.

Entre os elementos que podem fazer parte desse sistema estão:

  • paredes corta-fogo;

  • portas corta-fogo;

  • vedadores corta-fogo;

  • registros corta-fogo;

  • selagens corta-fogo;

  • afastamentos entre determinadas aberturas.

A própria Instrução Técnica do CBMMG relaciona esses elementos à compartimentação horizontal. (Bombeiros Minas Gerais)


Um exemplo prático

Imagine um pavimento de um edifício comercial dividido em dois setores.

Em uma das salas ocorre um incêndio.

Se não existir uma separação adequada, o fogo poderá encontrar portas, corredores, passagens de instalações ou outros pontos vulneráveis e atingir rapidamente os ambientes vizinhos.

Com a compartimentação adequada, a parede e seus elementos de proteção funcionam como uma barreira física, dificultando essa propagação.


E a compartimentação vertical?


Já a compartimentação vertical busca impedir ou retardar a propagação do incêndio entre diferentes pavimentos ou através de vãos verticais da edificação.

Esse cuidado é especialmente importante em locais como:

  • shafts de instalações;

  • escadas;

  • elevadores;

  • dutos;

  • fachadas;

  • aberturas entre pavimentos;

  • passagens de tubulações e cabos.

Entre os elementos utilizados na compartimentação vertical estão as lajes ou entrepisos corta-fogo, selagens nos entrepisos, enclausuramento de shafts e paredes e portas resistentes ao fogo. (Bombeiros Minas Gerais)


Por que isso é tão importante?

Porque um incêndio que começa no primeiro pavimento, por exemplo, pode encontrar um shaft aberto e alcançar os pavimentos superiores.

O mesmo pode acontecer através de vãos, dutos ou outras aberturas que atravessem diferentes níveis da edificação.

Por isso, um shaft não deve ser tratado simplesmente como um espaço para passagem de instalações. Ele também precisa ser considerado dentro da estratégia de segurança contra incêndio.


Paredes corta-fogo: a primeira grande barreira


As paredes de compartimentação são elementos fundamentais para limitar a propagação do incêndio.

Entretanto, não basta simplesmente utilizar uma parede de alvenaria e considerá-la automaticamente uma parede corta-fogo.

É necessário que o elemento possua as características de resistência ao fogo exigidas para aquela situação e que sua execução seja compatível com o sistema de compartimentação previsto no projeto.

No caso das edificações submetidas às exigências do CBMMG, a resistência ao fogo dos elementos de compartimentação está relacionada ao Tempo Requerido de Resistência ao Fogo (TRRF) e às condições estabelecidas nas respectivas instruções técnicas. (Bombeiros Minas Gerais)

Além disso, a própria construção da parede precisa ser adequada.

Uma parede de compartimentação não pode simplesmente terminar antes do teto ou deixar espaços que permitam a passagem das chamas e da fumaça.

A IT 07 do CBMMG estabelece, por exemplo, que a parede de compartimentação deve ser construída entre o piso e o teto e estar devidamente vinculada à estrutura da edificação. (Bombeiros Minas Gerais)


Portas corta-fogo: a abertura não pode destruir a compartimentação


Aqui existe um ponto muito importante.

De nada adianta possuir uma parede resistente ao fogo se existe uma grande abertura nela sem proteção adequada.

É por isso que as portas corta-fogo são fundamentais em determinadas situações.

Elas permitem a passagem de pessoas entre áreas, mas, quando especificadas para aquela situação, também funcionam como parte da barreira contra o incêndio.

Uma porta corta-fogo precisa ser compatível com a resistência exigida para o sistema e permanecer em condições adequadas de funcionamento.


Um problema comum

Imagine uma porta corta-fogo instalada corretamente, mas que permanece:

  • constantemente aberta;

  • travada com objetos;

  • danificada;

  • com fechamento comprometido;

  • com componentes removidos;

  • sem manutenção.

Nesse caso, a existência física da porta não significa que a proteção esteja funcionando adequadamente.


A porta precisa conseguir cumprir sua função quando o incêndio ocorrer.

Por isso, manutenção e inspeção são tão importantes quanto a instalação.


O perigo escondido nas passagens de instalações


Um dos pontos mais negligenciados da compartimentação está justamente onde normalmente não prestamos atenção: nas passagens de instalações.

Tubulações hidráulicas, cabos elétricos, telecomunicações e outras instalações precisam atravessar paredes e lajes.

O problema é que, para fazer essas instalações, são criadas aberturas.

Se essas aberturas não forem devidamente protegidas, elas podem se transformar em verdadeiros caminhos para a propagação do incêndio.

Por esse motivo existem as chamadas selagens corta-fogo.

A IT 07 do CBMMG determina que aberturas em paredes corta-fogo destinadas à passagem de instalações devem ser seladas de forma a promover a vedação corta-fogo, observando requisitos específicos de desempenho e ensaio. (Bombeiros Minas Gerais)


O que é uma selagem corta-fogo?


A selagem corta-fogo é uma solução destinada a proteger as aberturas existentes em elementos de compartimentação.

Imagine uma parede resistente ao fogo atravessada por diversos cabos.

Mesmo que a parede tenha bom desempenho, o espaço ao redor desses cabos pode permitir a passagem de:

🔥 chamas🌡️ calor💨 fumaça e gases quentes

A selagem é utilizada justamente para impedir que essa abertura comprometa a barreira.

É importante destacar que não existe uma solução universal para todas as situações.

O material e o sistema de selagem devem ser especificados de acordo com a abertura, os elementos que a atravessam, as características da parede ou laje e o desempenho requerido.


E os shafts?


Os shafts merecem atenção especial.

Eles são muito comuns em edifícios residenciais, comerciais, hospitais, hotéis e outras edificações porque permitem concentrar instalações em um espaço vertical.

Porém, quando não são adequadamente protegidos, podem funcionar como uma espécie de "chaminé" dentro da edificação, favorecendo a propagação do incêndio entre pavimentos.

Por isso, a compartimentação vertical pode envolver:

  • paredes resistentes ao fogo;

  • portas ou acessos protegidos;

  • selagens nos pontos de passagem;

  • proteção dos entrepisos;

  • registros corta-fogo quando aplicáveis aos dutos.

O CBMMG inclui expressamente o enclausuramento de dutos/shafts e a selagem corta-fogo na altura dos pisos e entrepisos entre os elementos de compartimentação vertical. (Bombeiros Minas Gerais)


E quando existem dutos de ar-condicionado?


Outro ponto que merece atenção são os sistemas de ventilação, exaustão e ar-condicionado.

Quando um duto atravessa uma parede de compartimentação, ele pode criar uma abertura através da própria barreira.

Nessas situações, dependendo da aplicação, podem ser necessários registros corta-fogo (dampers) e soluções específicas de proteção.

A IT 07 do CBMMG prevê requisitos para registros corta-fogo instalados quando determinados dutos atravessam paredes de compartimentação, incluindo condições relacionadas ao acionamento e ao fechamento em situação de incêndio. (Bombeiros Minas Gerais)

Isso demonstra um princípio importante:

Não adianta proteger apenas a parede. É necessário proteger também tudo aquilo que a atravessa.

Compartimentação não é apenas "construir uma parede"


Esse é talvez o ponto mais importante.

A segurança contra incêndio funciona como um sistema integrado.

Uma parede resistente ao fogo pode perder sua eficiência se:

  • houver uma abertura sem proteção;

  • uma porta corta-fogo estiver danificada;

  • uma passagem de cabos estiver sem selagem;

  • um shaft estiver aberto entre pavimentos;

  • um duto atravessar a barreira sem proteção adequada;

  • elementos da construção forem alterados posteriormente;

  • reformas criarem novas aberturas.

Por isso, a compartimentação precisa ser pensada desde o projeto e mantida durante toda a vida útil da edificação.


O que acontece durante uma reforma?


Esse é um cenário bastante comum.

Uma edificação possui um sistema de compartimentação corretamente executado.

Anos depois, uma empresa decide instalar:

  • novos cabos;

  • internet;

  • câmeras;

  • tubulações;

  • ar-condicionado;

  • sistemas de automação;

  • novas instalações elétricas.

Para realizar o serviço, alguém faz uma abertura em uma parede ou laje.

A instalação é concluída, mas o espaço ao redor da nova tubulação ou dos cabos fica aberto.

O problema é que a reforma pode ter comprometido uma proteção contra incêndio que existia originalmente.

Por isso, intervenções em elementos de compartimentação devem ser avaliadas tecnicamente e posteriormente recompostas com solução adequada.


Compartimentação e segurança dos ocupantes


A principal finalidade da compartimentação é proporcionar mais tempo e melhores condições para a resposta ao incêndio.

Esse tempo pode ser decisivo.

Enquanto o incêndio está restrito a determinada área, os ocupantes de outras partes da edificação podem ter melhores condições para abandonar o local.

Além disso, a limitação da propagação pode facilitar o trabalho das equipes de emergência e reduzir a extensão dos danos.

É importante entender, porém, que a compartimentação não substitui os demais sistemas de segurança contra incêndio.

Ela trabalha em conjunto com medidas como:

  • saídas de emergência;

  • iluminação de emergência;

  • sinalização;

  • extintores;

  • hidrantes e mangotinhos;

  • detecção e alarme;

  • controle de fumaça, quando aplicável;

  • sistemas automáticos de combate;

  • treinamento e procedimentos de emergência.


Como verificar se uma edificação está adequadamente compartimentada?


A avaliação deve ser feita por profissional habilitado, considerando as características específicas da edificação e a regulamentação aplicável.

De forma geral, alguns pontos merecem atenção:

1. Identificar as áreas que precisam ser compartimentadas

É necessário verificar a ocupação, características da edificação, dimensões, riscos e demais critérios estabelecidos pela regulamentação.

2. Verificar as paredes de compartimentação

É preciso avaliar se foram executadas conforme as características especificadas no projeto e se possuem a resistência ao fogo necessária.

3. Verificar portas e vedadores

As aberturas existentes nas barreiras precisam possuir proteção compatível quando exigida.

4. Inspecionar passagens de instalações

Cabos, tubulações e demais instalações que atravessam paredes e lajes devem ser avaliados.

5. Verificar shafts

É necessário observar se existe continuidade da proteção entre os pavimentos e se as passagens estão devidamente protegidas.

6. Avaliar dutos

Dutos de ventilação, exaustão e ar-condicionado que atravessem elementos de compartimentação podem exigir soluções específicas.

7. Comparar a situação existente com o projeto

Em edificações existentes, é importante verificar se reformas ou modificações alteraram as condições originalmente previstas.

No caso de projetos submetidos ao CBMMG, a documentação do processo deve representar os elementos de compartimentação, incluindo paredes, portas, vedadores, selos e registros/dampers quando aplicáveis. (Bombeiros Minas Gerais)


Por que a manutenção é tão importante?


A compartimentação é uma medida de proteção passiva, ou seja, sua função está incorporada aos elementos construtivos da edificação.

Isso não significa, porém, que ela possa ser simplesmente esquecida depois da obra.

Portas precisam permanecer operacionais.

Selagens não devem ser removidas.

Shafts não devem receber alterações que eliminem a proteção.

Novas instalações não devem deixar aberturas desprotegidas.

Reformas devem considerar os elementos de segurança existentes.

Em outras palavras:

uma compartimentação projetada corretamente pode perder sua função se for alterada ou mantida de forma inadequada.


Compartimentação é uma barreira contra a propagação do incêndio


Quando pensamos em prevenção de incêndios, é comum imaginar primeiro extintores, hidrantes ou alarmes.

Esses sistemas são fundamentais, mas existe uma parte da segurança que começa muito antes do combate: a própria construção da edificação.

Paredes resistentes ao fogo, portas corta-fogo, selagens, proteção de shafts, registros corta-fogo e outros elementos podem formar uma barreira capaz de retardar a evolução do incêndio.

O objetivo não é simplesmente "impedir que o fogo exista", mas evitar que um incêndio localizado encontre rapidamente caminhos para dominar toda a edificação.

Uma compartimentação bem projetada, executada e mantida pode contribuir para preservar vidas, reduzir danos e proporcionar melhores condições para a evacuação e para o combate ao incêndio.

Conclusão

A compartimentação contra incêndio deve ser entendida como um sistema, e não como um único elemento construtivo.

Uma parede corta-fogo precisa funcionar em conjunto com suas portas, selagens, passagens de instalações, shafts, dutos e demais componentes.

Pequenas aberturas ou alterações aparentemente simples podem comprometer a eficiência de uma barreira que foi projetada justamente para limitar a propagação do incêndio.

Por isso, ao construir, reformar ou adequar uma edificação, é fundamental avaliar a compartimentação desde o projeto e manter suas características durante toda a utilização do imóvel.


Segurança contra incêndio não começa quando o fogo aparece. Ela começa nas decisões tomadas durante o projeto, a construção, a ocupação e a manutenção da edificação.

Importante: os requisitos de compartimentação variam conforme a ocupação, características da edificação, legislação estadual e normas técnicas aplicáveis. Em Minas Gerais, por exemplo, devem ser observadas as Instruções Técnicas do CBMMG aplicáveis ao caso, além das normas técnicas pertinentes. A análise e especificação dos sistemas devem ser realizadas por profissional legalmente habilitado.

 
 
 

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